A mesa de refeições é, na leitura de Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, um dos poucos momentos do dia em que a família pode se encontrar, conversar e se reconhecer, sem pressa e sem a necessidade de grandes assuntos. Quando as telas ocupam esse espaço, a atenção se divide, os olhares se desviam e o diálogo perde profundidade.
Nesse contexto, entender como a distração interfere na convivência ajuda cada família a criar combinados simples e possíveis, sem culpa e sem cobranças excessivas. Assim, pequenas mudanças na rotina podem fortalecer o ambiente familiar, favorecer a escuta entre pais e filhos e transformar a refeição em um momento de acolhimento.
A mesa como espaço de encontro
Em muitas casas, a refeição é o único intervalo em que todos estão no mesmo lugar ao mesmo tempo. Entre o trabalho, a escola e as tarefas domésticas, o horário de sentar-se à mesa se torna uma oportunidade rara de contar como foi o dia, rir de uma situação engraçada ou perceber que alguém está mais quieto do que de costume.
Esses encontros funcionam como um alicerce silencioso da convivência, lembra Taiza Tosatt Eleoterio. Não é preciso que a conversa seja profunda ou que haja um assunto especial. O simples fato de estar junto, olhando uns para os outros, comunica à criança que ela faz parte de um grupo que se importa com ela e que há espaço para falar e ser ouvida.
Como as telas competem pela atenção?
Celulares, televisões e tablets são pensados para capturar a atenção, e é difícil competir com eles. Basta uma notificação para que o olhar se desvie, a frase fique pela metade e a conversa mude de direção. Mesmo quando a pessoa continua sentada à mesa, parte dela já está em outro lugar.
Esse movimento atinge crianças e adultos. Os pequenos tendem a reproduzir o que veem, e se os adultos olham o celular durante a refeição, a criança aprende que isso é natural. Por outro lado, quando a criança recebe uma tela para comer sem reclamar, o hábito pode se tornar uma dependência, já que ela passa a associar a hora de comer ao entretenimento, e não ao convívio.
O que a criança percebe quando os adultos estão distraídos?
Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que a criança é muito sensível à disponibilidade emocional de quem cuida. Quando fala e o adulto responde sem tirar os olhos do celular, ela pode concluir que o que tem a dizer não é tão importante, e essa impressão, repetida ao longo dos dias, interfere no modo como ela se vê e se expressa.
Isso não significa que um momento de distração cause algum dano. A saúde mental infantil é construída por experiências repetidas ao longo do tempo, e ninguém precisa ser perfeito. O que pesa é o padrão: se a maioria das refeições transcorre sem troca de olhares, sem perguntas e sem escuta, a criança tende a falar menos, e a família perde chances valiosas de se conhecer melhor.
Combinados possíveis para refeições com mais diálogo
Não existe uma regra única para todas as famílias, mas alguns combinados costumam ajudar. Um deles é escolher uma refeição do dia, como o jantar ou o almoço de domingo, para deixar os aparelhos em outro cômodo. Outro é começar a conversa com perguntas leves, como “qual foi a melhor parte do seu dia?”, que convidam todos a participar.
Para a psicanálise familiar, o exemplo dos adultos tem peso maior do que qualquer discurso, e Taiza Tosatt Eleoterio indica que o combinado funciona melhor quando vale para todos, sem exceções para quem é mais velho. Também ajuda envolver as crianças na decisão, permitindo que opinem sobre o que fazer durante a refeição, o que aumenta a adesão e o sentimento de pertencimento.
Sem culpa: a realidade de cada família
Há casas em que os horários não coincidem, em que um dos responsáveis trabalha à noite ou em que a refeição acontece em turnos. Nessas situações, exigir uma mesa perfeita só gera frustração. O mais importante é encontrar os momentos possíveis, que podem ser o café da manhã, o trajeto até a escola ou os minutos antes de dormir.
Quando a tela aparece em um dia mais difícil, também não há motivo para se culpar. Retomar o combinado no dia seguinte, com paciência e sem broncas, mostra às crianças, nas palavras de Taiza Tosatt Eleoterio, que é possível recomeçar. A autoestima de todos na família agradece um ambiente em que os erros podem ser corrigidos com cuidado.
Refeições com presença: o que levar para a rotina?
O problema não está na tecnologia em si, mas no espaço que ela ocupa quando o que mais se precisa é de presença. Reservar alguns momentos de refeição sem telas é uma forma simples de cuidar dos vínculos, de escutar quem está por perto e de oferecer às crianças um modelo de convivência atenta.
Taiza Tosatt Eleoterio recomenda que cada família comece por um passo pequeno, ajustado à sua realidade, e o mantenha com constância e leveza. Com o tempo, a mesa volta a ser um lugar de conversa, de riso e de acolhimento, que fortalece a saúde mental familiar e deixa lembranças afetivas para toda a vida.

