Três anos de presença mensal em comunidades de difícil acesso no sertão cearense acumulam um tipo de conhecimento que nenhum ensaio clínico produz. O projeto social Humaniza Sertão, fundado pelo doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, construiu ao longo desse período uma visão sobre saúde preventiva que começa muito antes do consultório e termina muito depois da consulta. Além disso, o conhecimento que vem do contato repetido com realidades concretas, com histórias que têm nome, com problemas que não cabem em formulários e com a constatação de que cuidar de verdade exige muito mais do que técnica.
No decorrer deste artigo, você vai entender o que essa experiência revela sobre prevenção em contextos vulneráveis e o que ela tem a ensinar para além do sertão. Acompanhe e inspire-se!
O que a prevenção significa quando o acesso é precário?
Em contextos de alta vulnerabilidade, a prevenção não começa com exames de rastreamento ou com orientações de estilo de vida. Todavia, ela começa pela pergunta anterior: o idoso tem o que comer? Tem transporte para chegar à unidade de saúde mais próxima? Tem alguém que perceba quando seu estado piora? Ignorar essas condições de base é propor uma prevenção que existe no papel, mas não na vida real das pessoas.
De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, foi exatamente essa compreensão que moldou o modelo do Humaniza Sertão desde o início. As doações de cestas básicas e fraldas são parte da estratégia preventiva, porque segurança alimentar e dignidade básica são pré-condições para que qualquer intervenção de saúde surta efeito real e duradouro.
A prevenção real no sertão começa por estar presente de forma consistente. Isso significa que a regularidade mensal do projeto cria uma cadência que as comunidades aprendem a antecipar, e essa antecipação já é terapêutica. O idoso que sabe que uma equipe vai voltar no mês seguinte tem um nível diferente de engajamento com o cuidado do que aquele que nunca sabe quando, ou se, vai receber atenção novamente.
O que a multidisciplinaridade ensina sobre prevenção integral?
Uma das revelações mais consistentes de três anos de atuação é que problemas aparentemente isolados raramente o são. Isto é, o idoso que chega com dor crônica frequentemente tem também comprometimento do sono, sinais de depressão não tratada e uma dieta inadequada que agrava o quadro inflamatório. Tratar a dor sem abordar os demais fatores é fazer prevenção incompleta, que logo retorna como problema recorrente.

Segundo a ótica do fundador do projeto social Humaniza Sertão, Yuri Silva Portela, a multidisciplinaridade do Humaniza Sertão não é uma escolha operacional. É uma resposta clínica à complexidade real das condições de saúde do idoso vulnerável. No momento em que médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos compartilham o mesmo espaço e o mesmo paciente no mesmo dia, o que emerge é uma compreensão do quadro que nenhum deles teria alcançado sozinho.
O que o sertão ensina sobre saúde que os grandes centros ainda não aprenderam?
Há uma ironia produtiva nesse percurso: o projeto que foi ao sertão para oferecer conhecimento especializado acabou recebendo de volta aprendizados que enriquecem a prática clínica de formas que a medicina acadêmica raramente proporciona. A resiliência das comunidades atendidas, a criatividade das famílias para cuidar com poucos recursos, a espiritualidade como estrutura de enfrentamento: tudo isso amplia o repertório de quem chega com disposição real para aprender.
Conforme destaca o doutor Yuri Silva Portela, a medicina que vai ao encontro das pessoas, em vez de esperar que elas venham, já está praticando prevenção de uma forma que os sistemas convencionais raramente conseguem replicar. Por isso, essa postura de aproximação ativa é uma das mais poderosas ferramentas preventivas disponíveis e custa menos do que qualquer equipamento diagnóstico de alta complexidade.
Três anos são o início, não o balanço
O legado de três anos de Humaniza Sertão não é um número de atendimentos. É uma mudança em como as comunidades se relacionam com seu próprio direito à saúde e como uma equipe de voluntários se relaciona com o sentido de sua própria prática profissional.
O doutor Yuri Silva Portela continua. E cada mês que passa acrescenta uma camada a mais de presença, de confiança e de impacto que nenhum relatório consegue capturar completamente.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

